sábado, 19 de dezembro de 2009

ANTES QUE ELES CRESÇAM

Hoje estou meio que saudosista, um pouco sentimentalista e com aquela sensação de perda e angústia que as vezes me assombra. Vasculhando coisas antigas, encontrei um texto bem interessante de Affonso Romano de Sant'Anna que fala sobre filhos. Ah! os filhos. Um dia crescem e se tornam independentes e nós não nos preparamos para esse momento de ruptura, então vem o vazio e a desconfiança de que poderíamos ter feito diferente e a incerteza de que fizemos o que deveria ser feito... fiquemos com esse texto maravilhoso.




Antes que eles cresçam
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças
crescem. Independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir
licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular, entre os estupros dos
preços, os disparos dos discursos e os assaltos das estações. Crescem com uma estridência alegre e, às
vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem de repente. Um dia, sentam-se perto
de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade, que você sente que não pode mais trocar as
fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha, que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho
de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços,
amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica, desobediência civil. E você agora
está ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais,
ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes lá estão nossos filhos, com o uniforme de sua geração:
incômodas mochilas da moda nos ombros nus, ou, então, com blusa amarrada na cintura. Está quente,
achamos que vão estragar a blusa, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos, com os cabelos já embranquecidos. Esses são os filhos que conseguimos gerar,
apesar dos golpes dos ventos, das colheitas das notícias e das ditaduras das horas. E eles crescem meio
amestrados, observando nossos muitos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Não mais os colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e
canções. Passou o tempo do balé, do inglês e da natação, do judô. Saíram do banco de trás e passaram
para o volante das próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer, para ouvirmos sua alma respirando
conversas e confidências entre os lençóis da infância e os adolescentes cobertores, naquele quarto cheio
de adesivos, posters, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não, não os levamos suficientes vezes
ao maldito play center, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes
compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio, subiam a serra ou iam à casa de praia, entre embrulhos, bolachas,
engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, disputa
pela janela, pedido de chicletes e sanduíches, e cantorias infantis. Depois chegou a idade em que viajar
com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível largar a turma e os
primeiros namorados. Os pais ficaram, então, exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre
desejaram, mas, não de repente, morriam de saudades daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e
estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão
desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o
nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

"Existem muitas coisas na vida que irão surpreender os seus olhos mas poucas coisas irão surpreender o seu coração ..."

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009




"As palavras criadas para defenir


conseguem apenas complicar


signos diversos para demonstrar


o que um simples olhar poderia resumir".




Martha Medeiros